Crônicas

O outro pior encontro casual

Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo.

Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim.

Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectual do rolê”.

É aquele tipo de sujeito — pode ser uma mulher também, claro, já conheci várias — que quer ser o mais culto da turma, o mais sábio, um professor.

É aquele sujeito que, ao te ver, por exemplo, com um livro nas mãos, quer arrancar o livro das suas mãos e colocar outro no lugar: “Você comprou este livro? Não acredito.”

E vai, sem cerimônias, tirando o livro das suas mãos, colocando outro no lugar, jurando, claro, que vamos agradecê-lo no futuro.

É aquele amigo que, num bar, não conversa, mas discursa: dá palestras, conferências. “Você acha que vou ouvir este tipo de disco? A vida é curta para eu perder tempo com música ruim.”

Para gente assim, o gosto musical dos outros é sempre fútil, idiota, pura perda de tempo.

É um tipo de amigo que, depois que alguém fala que foi ao cinema, estufa o peito e diz: “Eu não sei há quanto tempo não vou ao cinema. Esses filmes de hoje em dia…”

É daqueles que, num passado — lá pela Renascença —, já viu todos os filmes, ouviu todas as músicas que tinha que ouvir, leu todos os livros, foi a tudo quanto é peça de teatro.

Aquele amigo que diz: “Eu não vejo filmes no cinema, prefiro os que tenho em casa.” “Eu não tenho mais paciência para ouvir música, já ouvi tantas.”

Este homem é sempre o intelectual da turma, o conselheiro, o sábio. De repente, quando ele chega, alguém fala em surdina: “Agora ninguém mais fala. Só ele.”

Disco bom é só o que ele descobre; livro bom é só o que ele cita; teatro bom é só o que ele viu.

E nós, claro, os amigos, vamos sumindo, como verdadeiros analfabetos, anotando, claro, as dicas dele, que serão importantes para o futuro.

E continuamos, claro, gastando nosso salário com nossos livros tolos, nos divertindo com filmes ruins, vendo a vida passar em brancas nuvens, sem ter visto todos os filmes, sem ter ido a todas as peças, nos emocionando com um balé insignificante.

Pois é, meu bom Antônio Maria, os chatos só aumentam desde que o mundo é mundo.

Mas sua crônica continua muito boa — e cada vez mais atual.

Não me canso de ler.

Pelo menos a gente ri um pouco.

Bebo uma cerveja por você, meu caro cronista.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar